Sunday, November 23, 2008

AO CASTOR

E melhor seria anotar os acontecimentos dia a dia. Manter um diário para que estes possam ser percebidos com clareza. Não deixar escapar nuanças, os pequenos fatos, ainda quando pareçam insignificantes, e sobretudo ordená-los. É preciso que diga como vejo essa mesa, a rua, as pessoas, meu pacote de fumo, já que foi isso que mudou. É preciso determinar exatamente a extensão e a natureza dessa mudança.
Por exemplo, eis aqui uma caixa de papelão que contém meu frasco de tinta. Seria preciso tentar dizer como a via antes e como atualmente a vejo. Pois bem, é um paralelepípedo retangular, destaca-se sobre - é tolo, não há o que dizer a respeito. É isso que tem que ser evitado; é preciso não colocar estranheza onde não existe nada. Creio que é esse o perigo, quando se faz um diário: exagera-se tudo, vive-se a espreita, deforma-se constantemente a verdade. Por outro lado, é certo que posso , de um momento para outro - e precisamente em relação a esta caixa ou a qualquer outro objeto - experimentar novamente a impressão de anteontem. Tenho que estar sempre preparado; do contrário, ela mais uma vez me escaparia. É preciso nada mais forjar, mas anotar cuidadosamente, e com a maior minúcia, tudo o que ocorre.
J. P. Sartre

1 comentários:

Atendimento A. Deplex said...

Nossa! Bacana... menina inquieta, vibrante, certeira... Como a arte não se dobra, não se submete, apenas aprecia, estuda, planeja... e ataca!

Bjus.